Criatividade e Não-Localidade na Física Quântica

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By Isadora Migliori, Chief Science Officer at Newmanity


É frequente ouvirmos investigadores e peritos referirem na mesma frase os termos função de onda, colapso, realidade experimentada e criatividade. Que relação existe entre estes conceitos e a abordagem onde a consciência cria a realidade?

O conceito de não localidade nasce na Física Quântica com os experimentos mentais (do alemão Gedankenexperiment [1]) de Einstein, nomeadamente no Paradoxo EPR de Einstein-Podolsky-Rosen, e a inclusão desta ideia no formalismo matemático da mecânica quântica (nomeadamente no teorema de Bell), quando esse fenómeno era chamado entre os físicos de efeito fantasmagórico à distância.

Após a comprovação experimental ficou claro que essa ideia aparentemente louca e totalmente fora do senso comum era uma realidade. E o que de facto era este fenómeno observado?

Os elétrons, partículas que constituem os átomos, tem em si a propriedade de se comportarem como uma onda ou como uma partícula. Se pararmos para analisar as implicações físicas e filosóficas desse facto em si, já teremos uma noção do quão revolucionária é essa ideia em relação à nossa visão do mundo.

Imaginemos dois elétrons em seu estado de onda. Ao criar um estado de superposição quântica, as ondas de probabilidades desses elétrons ficam emaranhadas. O que equivale a dizer que as probabilidades de manifestação desse elétron estão coexistindo nesse momento.

Quando essas ondas colapsam, ou seja, deixam de se apresentar como onda e se apresentam como partículas, temos agora duas partículas, dois elétrons, que foram criados a partir do mesmo emaranhado quântico. Ok, e então....?

A grande “mágica” da não-localidade é que, todas as interações que uma das partículas sofre, a outra sentirá instantaneamente!

E porque isso é tão surpreendente? Pelo facto desse fenómeno acontecer independentemente da distancia em que uma partícula está da outra.

De acordo com a lei da relatividade geral, nada pode viajar mais rápido que a velocidade da luz. Dado que não existe desfasamento de tempo entre o estimulo que é dado a um elétron e o que é sentido pelo outro, isso significa que a informação para ir de uma partícula para a outra não viajou pelo tempo e pelo espaço, porque nesse caso teria ido mais rápido que a velocidade da luz.

Mas não é só isso. O que é realmente intrigante, é que este facto - de ao se observar/alterar uma partícula modificar-se a outra de maneira igual, instantaneamente -, nos faz chegar a conclusão de que esses elétrons ainda estão conectados, mesmo que aparentemente pareçam estar fisicamente separados.

Como já referimos em artigos anteriores, o que faz com que uma onda de possibilidades de probabilidades se converta em um evento real da realidade que experimentamos, é a observação.

Analisando a possibilidade de essa observação, que causa o colapso de uma função de onda em realidade, ser feita pela consciência do observador e não apenas entre interações materiais, podemos analisar o fenómeno da não-localidade como sendo o processo fundamental do acesso a ideias e realidades fora dos padrões condicionados de pensamento.

Um exemplo quotidiano: quando temos um problema e necessitamos de realizar uma escolha de entre as soluções disponíveis. Podemos ficar na dúvida entre as opções que conhecemos enquanto solução. Agora, se de repente temos uma ideia realmente nova, algo que nunca havíamos pensado antes, e agora “vemos”, a sensação que temos quando pensamos algo assim, não é a de que estarmos escolhendo, mas sim de experimentarmos algo novo. Esse acesso ao novo se dá de forma descontínua (já falámos sobre os processos descontínuos em artigo anterior, clique aqui para ver) e não-local.

Nossa mente condicionada, é uma mente local. Porém, a partir desta perspectiva temos a possibilidade de entrar em contacto com uma consciência que é não-local, a partir da qual seríamos capazes de criar... criativamente.

Ou seja, criar algo realmente novo.

[1] Gedankenexperiment: Constitui um raciocínio lógico sobre um experimento não realizável na prática, mas cujas consequências podem ser exploradas pela imaginação.



 
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A professora Isadora Migliori, é física, com especialização em mecânica quântica e astrofísica. Realiza pesquisa na área de investigação filosófica das ideias da física quântica na contemporaneidade, pesquisa em andamento relativamente ao problema da medição quântica, tendo como fundamento a consciência enquanto aspecto primordial. Podes conectar-te com a Isadora aqui.